"O meu sonho é fazer a melhor fábrica do mundo"!

Iniciativa: COMPETE 2020 ao lado de quem cria valor

Por percursos repletos de desafios, as empresas portuguesas, com os produtos "made in Portugal" têm alcançado um posicionamento distinto na cadeia de valor e contribuído, de forma inegável, para o equilíbrio da balança comercial da economia portuguesa.

Conhecer esses percursos é fundamental para a estrutura do COMPETE 2020, sendo este o Programa que tem por objetivo último criar condições de crescimento económico sustentado em Portugal por via da competitividade e das exportações.

Neste contexto, o COMPETE 2020 está a promover um ciclo de visitas de empresas à Autoridade de Gestão, envolvendo alguns dos protagonistas de histórias de sucesso empresarial, para partilharem o seu percurso.

Organizados por setores, teve início a 2 de dezembro de 2015, o ciclo dedicado ao Vestuário, Moda e Calçado.

A 14 de dezembro seguiu-se o testemunho de Vítor Paiva, CEO da Damel. Nascido na Póvoa de Varzim na década de 1980, especializou-se na confeção de vestuário técnico numa altura em que o resto da indústria estava mais preocupada em ganhar dinheiro com grandes séries de produtos simples mas sem valor acrescentado. Desde então, muitas fábricas fecharam portas, mas a Damel ainda cá está, a produzir roupa de moda de alta gama e vestuário técnico e desportivo para grandes marcas mundiais.

As principais áreas de negócio desta empresa são:

1.    Vestuário de Moda - A produção de moda para as grandes marcas é um importante cartão-de-visita, servindo de rampa de lançamento para contactar novos clientes. Permite uma distribuição da produção ao longo de todo o ano e representa 20% da faturação.

2.    Vestuário Técnico - Envolve sailing, esqui, golf, running, montanha, desportos automobilizados, vestuário corporativo (polícia, funcionários de aeroporto, por exemplo) e de proteção individual. Esta área representa cerca de 80% da produção.

 

DAMEL

Da ganga para produtos de alto valor acrescentado

Tudo começou, nos princípios de 1980, com calças de ganga. Os pais de Vítor Paiva, David Cardoso Paiva e Amélia Gomes Sá, sempre trabalharam no sector têxtil. O pai na secção de corte e a mãe como costureira.

O desafio que mudaria a vida de David surgiu quando estava no desemprego: ajudar um cliente a produzir algumas peças em regime de subcontratação. Começou por trabalhar em nome individual e quando o negócio começou a ser estável, a sua mulher sai da Maconde e junta-se ao marido para dar origem à Damel.

Começaram com quatro pessoas, numa garagem, a fazer calças de ganga. No entanto, como muitas empresas começaram a entrar também no mercado da ganga, os pais sentiram a necessidade de alternativas. A opção recaiu no vestuário técnico e nos fatos de esqui.

Na altura os empresários com fábricas grandes não queriam estar com trabalho para fazer coisas miudinhas; enquanto os pais, que sempre trabalharam com peças pequenas, como fatos e vestidos de noiva, passaram de peças de 40 minutos de trabalho para peças de 200 minutos.

Desde então a Damel nunca mais foi a mesma. Entre 1987 e 1988 a garagem ganhou um piso e em 1990 muda-se para um novo armazém de 1500 metros quadrados, já com melhores condições de trabalho e 70 trabalhadores.

O aparecimento do segmento moda foi determinante para este crescimento. Neste sentido, uma empresa de prestígio internacional subcontratou a Damel para produzir coleções de grande qualidade e alto valor de mercado. Esta parceria foi de uma importância extrema para a empresa pois trouxe muito conhecimento, desenvolvimento e abriu portas para começar a trabalhar com outras marcas.

Gore-Tex: um marco relevante

O licenciamento de produção de vestuário com tecidos Gore-Tex foi uma conquista importante da empresa que, em 1992, ficou autorizada a produzir vestuário com este material impermeável. Além de conferir uma grande "respirabilidade às peças", tem uma boa performance em termos de conforto.

Este material tem sido útil para os equipamentos de esqui, vela e golfe, assim como para os artigos de moda, uma vez que passou a ser possível produzir "blusões com aspeto clássico, mas onde é usado o Gore-tex" e "visualmente não se nota que ele está lá".

Damel renasce em 1995

Quando se especulava sobre a entrada de países da antiga URSS na União Europeia, Vítor e os pais concluíram que a situação traria desafios para a empresa pois tinha clientes do centro da Europa, “para quem seria muito mais fácil produzir numa Polónia ou numa Roménia pela proximidade e pelo custo".

Tendo sempre um espírito de fazer mais e melhor e antevendo dificuldades na Damel, Vítor Paiva planeou um projeto de modernização da fábrica, ao nível dos sistemas de produção, do layout, do equipamento e das instalações.

Para isso, foi necessário um investimento de um milhão de euros. No entanto, antes de dar esse passo, Vítor Paiva contactou os principais clientes que, perante a promessa de maior qualidade e flexibilidade de produção, garantiram encomendas para os cinco anos seguintes.

Surgiu o fabrico de blusões e fatos de esqui, uma linha de produção extremamente técnica e de alta qualidade, deixando, desta forma, uma parte do mercado interno e passando a exportar para vários países da Europa e EUA.

Formação Profissional

Respeitando e mantendo os altos padrões de qualidade, aumentaram as encomendas, e assim a produção foi crescendo. A fábrica renasceu e em 2000 inaugurava um moderno sistema de produção, onde as peças circulam pelo ar ao longo da fábrica, sendo trabalhadas passo a passo pelas costureiras. Neste processo ninguém perdeu o emprego: "todas as pessoas foram reconvertidas para outros trabalhos".

Desde 1997 a DAMEL tem dado prioridade à formação profissional e à reconversão das pessoas que foram afetadas pelo novo sistema de trabalho e automatização da montagem das diferentes linhas de produção, evitando despedimentos, com ganhos simultâneos de produtividade e eficiência.

Década difícil

A década que se seguiu não foi fácil. Segundo Vítor, andaram "a trabalhar com margens zero" devido à pressão dos preços da Ásia. A bolha de 2008 também não ajudou, com clientes a anular encomendas, nomeadamente na área dos desportos automobilizados.

Nos últimos anos esta situação tem-se vindo a inverter. A instabilidade nos países do norte de África tem levado ao afastamento das produções para outros lugares, e na China "os preços já não são os preços a que estávamos habituados há dez anos atrás. Os chineses ganharam estatuto, direitos e os preços aumentaram".

Tudo isto colocou Portugal numa posição favorável, onde a qualidade da confeção está garantida e o aumento dos preços está estabilizado nos "3 a 4% ao ano", muito abaixo do aumento de custos registado em países como a Polónia e a Roménia.

Inovação: a aposta certa

A inovação dos processos de fabrico permitiu à Damel estar à frente da concorrência. Mas cada vez mais, o objetivo passa por impregnar os próprios produtos com funcionalidades inovadoras. A visão de Vítor Paiva é muito clara, é preciso apostar no desenvolvimento de produtos inovadores para "fazer com que os clientes fiquem dependentes da Damel - do que esta desenvolve e da tecnologia que aplica".

De momento a DAMEL tem nos seus quadros 160 colaboradores com um nível etário médio de 28 anos, com formação para responder de uma forma eficaz às solicitações impostas pelos seus clientes, 80 % destes trabalhadores foram formados pela DAMEL, integrados em cursos de formação e reciclagem.

A Damel encontra-se atualmente, totalmente renovada com uma área produtiva e administrativa de 3000 m2 e a melhor tecnologia disponível no mercado.

Como já referido, a estratégia constante de inovação encontra-se perfeitamente enquadrada na linha estratégica de desenvolvimento da DAMEL - desenvolvimento contínuo de novos produtos técnicos e de alto valor acrescentado com recurso a matérias e processos/tecnologias inovadoras.

Enquanto isso, a postura de Vitor Paiva perante o futuro é a de uma serenidade otimista, apostando numa estratégia muito simples: consolidar e desenvolver os mercados, a partir daí "fazer coisas que os outros tenham mais dificuldades de fazer e que para nós já é normal."

Aquando da sua visita à Autoridade de Gestão do COMPETE 2020 Vítor Paiva partilhou o seu sonho: “fazer a melhor fábrica do mundo”. Para tal será necessário “criar condições para potenciar as mais-valias entre empresas, universidades e designers.”

Conclusão

Vítor Paiva foi contra a corrente quando todos optaram por modelos de negócio mais seguros baseados no setor têxtil tradicional. Apostou fortemente na diferenciação de produto radicada numa filosofia de inovação permanente traduzida em produtos e processos novos para o mundo.

O seu espirito empreendedor e curiosidade levou-o a sair da zona de conforto, optando antes por um escrutínio das necessidades existentes e latentes no mercado global de forma transversal a vários setores de atividade, oferecendo soluções customizadas para problemas concretos de mercado.

 

Projetos desenvolvidos

Ideias não faltam para criar produtos diferentes e dar novas utilizações a inovações já existentes.

Vejamos alguns casos:

  • "Coldfit", um fato de proteção térmica de alto desempenho, desenvolvido pelo CITEVE e executado pela Damel, capaz de suportar grandes amplitudes térmicas.
  • “Coldfit Moto”, um fato de proteção pessoal vocacionado para motociclistas que confere uma série de níveis de proteção ao rasgo, corte e impacto. Uma tecnologia ilustrada no documentário da Universidade do Minho: "O Extraordinário Mundo das Fibras - proteção pessoal".
  • Sea2B, um dispositivo de flutuação individual com insuflação automática, manual e oral, confortável e funcional de modo a possibilitar a utilização contínua para a segurança da vida humana no mar.

Este projeto levou 3 anos a desenvolver, fruto de uma parceria da Damel com o Citeve - Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal. Vitor Paiva explicou que além da valência de "salva-vidas de emergência", o blusão estará recheado de tecnologia útil em diversas ocasiões. Por exemplo, um velejador cai à água e o barco segue caminho. Nestas situações o SeaB2 "poderá estar associado a um sistema de localização - como GPS - com uma antena têxtil que emite um sinal detetável por todos os barcos e autoridades de segurança".

Vitor Paiva explica que este conceito é único no mundo e as aplicações profissionais são diversas, abarcando não só os desportos náuticos, radicais mas também a própria indústria pesqueira, podendo impedir desfechos fatais de pescadores que caem ao mar e por vezes morrem a 100 metros da costa.

No caso dos desportos radicais, o blusão poderá ser readaptado para funcionar como cápsula de proteção para esquiadores em situações de avalanche, tendo Vítor Paiva confidenciado que já falou com sobreviventes de avalanche.

 

Testemunhos Inspiradores de Vítor Paiva
  • “Nos têxteis técnicos não há nada que seja verdade; tudo tem de ser testado”
  • “Pretendo ir a outras indústrias, buscar materiais e máquinas e adaptar no têxtil”
  • “Faço protótipos caseiros e testo-os no mar”
  • “Ao sábado de manhã gosto de ir para o escritório, pôr a música bem alto e pensar em loucuras…é assim que muitas vezes tenho ideias para novos projetos”
  • “É necessário ir para diversas áreas, nomeadamente, ski, mota, para ter uma produção equilibrada”
  • “Eu sei o que sei”
  • "É preciso desenvolver o conhecimento para dominar as técnicas de produção. Com essas técnicas é que se consegue obter qualidade”
  • “A inovação tem de estar sempre presente!"
  • “Tento pensar nas coisas, ver o que há no mercado e tento fazer de forma diferente”
  • "É preciso desenvolver o conhecimento para dominar as técnicas de produção. Com essas técnicas é que se consegue obter qualidade”
  • “Eu sei o que sei”
  • “A inovação tem de estar sempre presente!"
  • “Eu não crio zonas cinzentas com ninguém, nem com os clientes. Quando há problemas comunico. É a melhor forma de lidar”
  • “Conheço toda a gente na empresa pelo nome”
  • “O meu sonho é fazer a melhor fábrica do mundo”

 

04/01/2016 , Por Cátia Silva Pinto
COMPETE 2020
Presidente do COMPETE 2020
Rui Vinhas da Silva